GEOCIDE (2017) - de Cátia Pinheiro e José Nunes

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SOBRE GEOCIDE

“Geocide” é um espetáculo da Estrutura (Cátia Pinheiro e José Nunes), com a colaboração dramatúrgica de Rogério Nuno Costa, que se lança nos temas da mobilidade demográfica, das narrativas distópicas, das visões de futuro apocalípticas, da biopolítica e, consequentemente, da geopolítica.
Tudo começou com o nosso fascínio pelo conhecimento (quase inútil) de curiosidades geográficas. No entanto, sabermos de cor os nomes de todos os países e respetivas capitais não seria à partida material suficientemente interessante para se criar um espetáculo, e como a dimensão cromática de cada bandeira esconde uma história (figuras, guerras, conquistas, tragédias...), decidimos ir mais além. Hoje em dia não é muito difícil sabermos que Alepo é uma cidade do norte da Síria, ou que Molenbeek é um bairro de Bruxelas. Interessava-nos questionar como é que o nome de uma cidade, bairro, ou país se inscreve na nossa psicogeografia.
Acreditamos que, ainda que não seja o papel da arte dar resposta às atuais encruzilhadas sócio-políticas, não podemos ignorar o "elefante na sala". Devemos, artistas e espetadores, refletir sobre o estado das coisas, sobretudo num momento em que muitos dos ideais do Projeto Global e da Sociedade do Conhecimento e da Informação começaram a ruir. Será que “o choque da realidade” da crise financeira, do terrorismo, e da crise migratória e dos refugiados desmascararam a “utopia” do capitalismo global? Como é possível falar-se numa Quarta Revolução Industrial e na vitória do machine learning e, paradoxalmente, assistirmos a retrocessos civilizacionais ao nível da política ecológica, dos direitos sociais, da tolerância multicultural ou do respeito entre povos e nações? Que soluções serão possíveis para resolver estes fenómenos sem cairmos em radicalismos ou soluções políticas que se assemelham a novas formas de apartheid?
Foi a refletir sobre esta conjuntura que chegámos ao conceito operativo do espetáculo, servindo-nos do termo geocide avançado por Paul Virilio na obra “The Futurism of the Instant” para se referir ao atual fenómeno massivo de mobilidade demográfica e à previsão de que, no futuro, assistiremos à abolição das noções de identidade geográfica/territorial a favor de um mundo omnipolitano, cujo movimento permanente deixa de ser não-lugar para passar a lugar-onde.
A partir dessa alegoria, pretendemos abrir um espaço de reflexão sobre o aqui e o agora, e ao mesmo tempo especular e efabular sobre possíveis visões de futuro — mais ou menos catastróficas, mais ou menos techno-digitais, mais ou menos algorítmicas, mais ou menos hiper-vigilantes, mais ou menos ecocidas, mais ou menos ecosofistas, mais ou menos new age, mais ou menos quânticas —, futuro esse que poderá ser destruidor ou redentor, uma espécie de resort distópico resultante de uma mobilidade demográfica vertiginosa.
Em suma, uma visão de futuro que talvez não seja assim tão distante da atualidade, como Slavoj Žižek refere em relação ao filme distópico “Children of Men” de Alfonso Cuarón: “É mais real que a realidade, na lógica hegeliana de que um bom retrato parece mais a pessoa retratada do que a própria pessoa”.

SINOPSE

“Geocide” conta a história de um mundo. Pode ser o mundo que conhecemos, ou então outro qualquer, exatamente igual, apenas com uma diferença infinitesimal de foco que o transforma completamente. Uma história sem História, num lugar mais ou menos distópico, mais ou menos distante. No palco, três seres habitam um espaço e a ação não está naquilo que eles transportam, mas no dispositivo que pisam. Imagina-se um tempo (“futuro”?) onde a memória terá sido apagada a favor de uma noção de humanidade reduzida à (sua) eterna contemplação.
Enquanto artistas, mas também enquanto espetadores e cidadãos, interessa-nos equacionar a possibilidade de um mundo pós-verídico, para lá da evidência de um discurso catastrofista facilmente político-panfletário, solucionador ou consolador. Queremos antes abrir um espaço de observação essencialmente topográfico (o espetáculo/mundo enquanto destination resort) e tecnocêntrico (a Máquina a colocar o Homem na condição de eterno turista), mas sem aditivos morais, mais ou menos punitivos, mais ou menos redentores. Queremos ficcionar um lugar que é a sua própria representação, antecipando esse dia em que os mapas serão mais reais que os locais mapeados.

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
  •   CRIAÇÃO: Cátia Pinheiro e José Nunes
  •   COORDENAÇÃO DRAMATURGICA: Rogério Nuno Costa
  •   INTERPRETAÇÃO: Cátia Pinheiro, José Nunes e Tiago Jácome
  •   DESENHO DE LUZ: Daniel Worm d’Assumpção
  •   CONCEÇÃO PLÁSTICA: Cátia Pinheiro
  •   FIGURINOS: Jordann Santos
  •   ASSISTÊNCIA À CRIAÇÃO: Mafalda Banquart e Tiago Jácome
  •   IMAGEM, REGISTO E APOIO AO VÍDEO: António MV
  •   PRODUÇÃO: Estrutura
  •   CO-PRODUÇÃO: Centro Cultural Vila Flor, 23 Milhas - Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré
  •   APOIO À RESIDÊNCIA: O Espaço do Tempo, Centro de Criação de Candoso e Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré
  •   APOIOS: Resinorte, Teatro Universitário do Porto, Wedesign
  •   CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: M/12
  •   DURAÇÃO APROXIMADA: 60 minutos (sem intervalo)
  •   CALENDARIZAÇÃO:
    1 de Junho de 2017 - Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)
    16 de Junho de 2017 - Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré
  •   AGRADECIMENTOS:
    Teatro Praga, Restaurante Estrela do Mar (Gafanha da Nazaré), Joana Mont'Alverne, Bruno Reis, Carlos Mota, Isália Faro, Otília Faro, Romualdo Passos, Xana Novais, Diogo Bessa