UNDER CONSTRUCTION

Ia fazer uma introdução gigante ao que a seguir se lê, explicar o contexto, fazer bonito, arranjadinho. E íamos editar, rever, reescrever, corrigir. Mas, em vez disso, vou deixar tudo como está, porque é assim que somos, foi assim que fluímos e tenho ORGULHO nisso. As únicas correções necessárias aqui são as históricas.

O diálogo que aqui se apresenta está e estará para sempre EM CONSTRUÇÃO. Em construção porque com tantos anos de estórias da história não tem fim à vista,  em construção porque é impossível conclusão, e em construção porque se pretende aberto e extensível a quem queira juntar-se a nós. Em mensagem disse à Sónia que tenho um sonho: o de que este espaço seja para sempre nosso, que esta conversa se prolongue e que nós as duas continuemos a falar aqui e que acima de tudo se possa estender à colaboração de muitxs outrxs. Por isso deixamos desde já a vontade, o sonho e o espaço para que isto possa acontecer, ou a alegria de que o que aqui escrevemos em diálogo livre e discorrido possa fazer sentido e ecoar em quem nos lê.

Cátia Pinheiro

Olá Sónia!

Proponho que se escreva a duas cores, podem ser estas, ou outras, é só para distinguir quem diz o quê. Eu escolho este lilás, mas não me importo nada de mudar de cor, caso seja difícil ler, se não gostares, se preferires ser tu lilás ou outra coisa qualquer. :)

Então cá vai, oops! Lilás.

O recurso está a acabar e tu andas a ecoar na minha cabeça desde Dezembro. Vou colar aqui o thread dessa altura:

06-12-2017 16:23

Sónia BaptistaQueridos estrutura, olá 😊

Queria-vos agradecer porque, por causa da vossa bela peça, e do loop passarento, pensei melhor no meu fim e tive, assim, uma pessoa-pássaro para me fechar o espectáculo - que de facto comunica com ou comenta o vosso pássaro ó ó. Ficou bonito e tenho pena que não tenham visto. Next time.

Pronto, gostei de vos ver e destes nossos pássaros comunicantes!

E, como estou cada vez mais velha e com mais mau feitio, hihihi, queria só dizer que acho muito interessante o curso que estão a organizar mas: só duas mulheres convidadas? Hum... Fico triste porque gosto de vocês e, não me querendo meter nos vossos processos de escolha e etc. queria dizer que: há criadoras por aí e boas, que não têm tanta visibilidade como outros criadores e é pena. Custa-me não dizer nada... Sorry. Mas espero que corra tudo bem e que se desenvolva e continue e tudo e tudo.... Mas com mais umas senhoras à mistura, talvez? 😉

Beijinhos e até breve*

17-12-2017 13:37

Estrutura

Olá Sónia,

Desculpa só respondermos agora, mas com candidaturas, uma viagem a França e algumas complicações familiares, só agora conseguimos responder com a atenção devida à tua mensagem.

Antes de mais, ficamos muito contentes que tenha corrido bem e que o nosso passaroco não tenha sido um problema, mas uma solução! 😉 Ficamos tristes das nossas datas terem sido incompatíveis mas esperamos poder ver o espetáculo no futuro!

Quanto ao Recurso, às vezes, há coisas que nos saem fora do controlo e podem gerar más interpretações. Fizemos a comunicação do Recurso, em pré-estreia, mas tinha que ser porque estávamos obrigados contratualmente e por isso, a comunicação que circulou pode dar uma impressão que não queríamos de todo. Não são apenas 2 mulheres, há também a Rachael Walton dos Third Angel e “outros nomes a anunciar” conforme dizemos na apresentação. Só que infelizmente até à data da comunicação não tínhamos a confirmação de todos os formadores (ainda hoje não temos) e não queríamos avançar com o nome de ninguém sem confirmação para não gerar equívocos em ninguém, nem abusar da confiança. Coincidentemente os formadores que estávamos a aguardar resposta eram mulheres. Entretanto, a Paula Sá Nogueira já confirmou. E aguardamos a resposta de outra formadora. Infelizmente, a única nega que tivemos foi de uma mulher. Concluindo, se tudo correr como esperado serão 5 mulheres, sendo que na ideia inicial seriam 6. Mesmo assim, efetivamente, não são muitas.

Mas confessamos que não pensamos em género para compor o corpo dos formadores, a ideia era convidar todos os nossos colaboradores frequentes e as pessoas com quem já trabalhamos e conhecemos a metodologia. Não pretendíamos com a escolha (que foi partilhada com a mala e também com o Zé Maria) preencher quotas ou dar espaço a pessoas com menos visibilidade, pois isso desvirtuaria o pressuposto do curso que é precisamente não ter medo de ser um núcleo, bastante fechado em termos de colaboradores e também centrado na área Teatro e não ser abrangente no termo “artes performativas”, pois essa oferta, no caso do porto, até já existe. O Recurso é uma proposta muito centrada nos participantes e no espaço que cria na cidade do Porto, procurando criar um espaço que não existe… é quase um projeto de “responsabilidade social” e tem sido/está a ser um esforço muito grande para nós, tendo em conta a dimensão da nossa estrutura. Mas sentimos que era quase uma obrigação fazê-lo, depois de alguns apelos de diversos jovens participantes nos nossos laboratórios… mas pronto, para te explicarmos isso tudo e perceberes melhor o contexto, o ideal era mesmo falarmos pessoalmente, por uma mensagem não chega.

Entre nós, mala e Zé Maria já tínhamos comentado que achamos que há poucas mulheres, até porque somos duas no núcleo de formadores, mas todos concordámos que não nos queríamos distanciar disso para compor uma quota pois desvirtuaria todo o pressuposto do curso. Mas até por isso, um dos critérios de avaliação dos candidatos ao Recurso é a igualdade género, pretendemos ter um grupo equilibrado e felizmente a julgar pelos candidatos não vai ser difícil. E assim contribuirmos para criar contextos de visibilidade e formação para mais criadoras, porque efetivamente, no Teatro, temos plena consciência que o espaço é maioritariamente reservado ao núcleo masculino, branco e cisgénero e que cabe a todos nós fazer o nosso trabalho para produzir uma mudança.

Por isso, não queríamos que ficasses com a ideia que não partilhamos essa preocupação.

Aquele texto do The End sobre o poder precedente da linguagem em que dizemos “mesmo quando estamos a narrar um acontecimento podemos estar a insultar alguém” não era retórica e é mesmo verdade, se calhar fizemo-lo com a comunicação deste curso e pedimos desculpa por isso, mas não é de todo a intenção por trás disto.

De resto, queremos mesmo agradecer-te por teres partilhado connosco o que sentiste, pois se não o fizesses jamais ganharíamos consciência de que poderíamos estar a ser mal interpretados. Esperamos que não fiques triste e que possas agora compreender melhor as nossas intenções.

De qualquer das formas achamos que numa conversa, jantar ou cafezinho todas estas coisas podiam ser melhor partilhadas… portanto, deixamos aqui em aberto o convite. Se vieres ao Porto, por favor, diz coisas, nós faremos o mesmo se formos a Lisboa.

❤ Mil Beijinhos ❤

Cátia e Zé

Enviado por Catia Pinheiro

17-12-2017 17:29

oh, sim, claro. percebo perfeitamente. e obrigada pelo esclarecimento. de facto, o confronto com informação ainda não concluída  pode levar a mal entendidos ou a tristezas 🙂 eu tenho lutado muito pela visibilidade das mulheres, em tudo, em todas as áreas e não penso em quotas, penso que há mulheres a fazer coisas, todo o tipo de coisas e que muitas vezes tem de se procurar mais por elas. e bom, mau feito de quem já entra na meia idade, escolha minha em decidir não só nunca mais comer polvo na vida mas também trabalhar em equipas maioritariamente femininas, a ver se o prato da nossa balança sobe 😉

que vos desejo tudo de bom e obrigada pela gentil resposta. beijinhos*

Sónia Baptista;)<3        

Estrutura

 ♥️ ♥️😘

Ai!! MAS PORQUE É QUE OS MEUS AMIGOS SÃO TODOS HOMENS???

Enquanto artista não consigo nem quero abstrair-me do lugar que ocupo no mundo, e como mundo refiro-me ao mundo com projeção planetária e universal no qual o meu pequeno “mundo” (cujas aspas significam família) se insere. Ora, o “mundo” é um sítio seguro (relativamente), onde consigo respirar e criar dentro de algum conforto, segurança e liberdade, e neste “mundo”, a cor, o género, a orientação, a religião, etc., não são questão. Contudo, este “mundo” insere-se no tal mundo sem aspas e esse engole-me a cada passo. Passo a explicar: parágrafo

 

Trabalho com quem me identifico, gosto e sou amiga. Às vezes existem enganos, é certo, mas esta é uma regra que não pretendo mudar. Posso e quero sempre fazer mais e mais amigxs, mais e mais família. No entanto, a verdade é que os meus amigxs são todxs ou quase todxs—homens! O Recurso que agora termina é sintoma disso mesmo, em todos os formadores escolhidos, entre outras lógicas definidas entre Estrutura, mala e o Zé Maria, a lógica referida anteriormente era regra, e isso resultou numa feliz combinação de pessoas lindas mas que reflete uma triste realidade: apenas contemplava 4 mulheres num universo de 17 formadores. A verdade é que quando olho à minha volta, este meu “mundo” confortável, seguro e que me protege não é tão confortável assim, pois a composição do seu universo é sintoma do mundo sem aspas que constantemente agride, nega acesso, rotula, tipifica, objetifica e condiciona pessoas, apenas por fazerem parte do sexo ou género feminino, que no caso do nosso país até são a maioria (51,5% para 48,5%). E mesmo assim vejamos: em 4 anos (2015-2018) foram apresentadas 120 peças nos 2 palcos do Teatro Nacional Dona Maria II e dessas 120, só 17 são dirigidas unicamente por mulheres e, na sala Garrett apenas 2. Portanto as poucas mulheres representadas na programação estão confinadas a espaços menores e/ou alternativos. O mesmo se passa olhando para a programação do Teatro Nacional São João que nos mesmos 4 anos mantém a mesma prática (155 espetáculos, apenas 25 de mulheres) e aposto que dificilmente haverá algum espaço de programação em Portugal que contrarie esta norma, aliás, talvez um - o Teatro Munícipal São Luiz - que é dos poucos que é dirigido por uma mulher (mas não fiz as contas). Confesso que estava à espera de que esta pequena contagem feita através dos sites dos referidos teatros revelasse números bastante desproporcionais mas a realidade consegue ser sempre mais brutal do que as expectativas...  Isto é sintoma de que existem poucas mulheres criadoras ou de que o sistema continua a perpetuar sem pudor e muitas vezes sem consciência (no qual nos devemos incluir a todas) um lugar desigual predominantemente dominado por um sistema patriarcal, branco e cisgénero opressor? E se existem poucas mulheres criadoras, ou pelo menos em muito menor número que criadores masculinos, não será isso sintoma dessa mesma opressão?

O que é que se passa connosco? O que é que se passa comigo que mesmo tendo alguma consciência destes factos dou privilégio a este meu mundo cheio de aspas? E por outro lado, porque é que não posso manter esse “mundo”? Apenas porque sou mulher? Não é essa obrigação moral outra forma deste sistema me oprimir? Nem todas temos de querer dar o corpo às balas, às vezes estes “mundos” são a única forma de sobreviver ao horrível do mundo, à horrível realidade dos números, ao constante ataque das normas moralizantes e castradoras. Às vezes estes “mundos” são os únicos sítios onde temos voz, e são esses “mundos” que têm de crescer e engolir o outro mundo. E no entanto quando te apercebes que esse “mundo” que te permite ter voz é espelhado no mesmo mundo que te oprime… Não sei. Isto é sintomático de algo. Até que ponto é “normal”? Em que medida é que o facto de os meus amigxs serem quase todxs homens acontece por estes condicionalismos? E em que medida acontece pelo conforto deste “mundo” me toldar a visão? Não sei… Estou triste, cansada... Vou dormir.  

Nasci em 1980 apenas 4 anos depois de terem sido eliminadas todas e quaisquer discriminações do acesso ao voto em Portugal, e isso incluía o acesso ao voto de todas as mulheres portuguesas. 4 anos depois nasci eu… Vou dormir.

Bom dia, vou em rosa, apesar de ter começado em azul. Pode ser que volte ao azul. Porque posso ;) e porque o amarelo deixa o olho encandeado.

Hoje, na cama, peguei no telefone e vi que aí vinha coisa, por isso comecei a responder ainda de cabeça almofada. Claro que já me esqueci de tudo, com pequeno almoço e meditação pelo meio. Desde há uns dias que regressei à meditação matinal e diária como proposta para me ajudar a combater a ansiedade. Quietar os nervos para o miolo ter mais espaço para pensar com clareza. E o meu miolo tem andado zangado, enerva-se.

No início do ano passado escrevi um texto cheio de zanga, alimentado por muita investigação, muitos números e estatísticas, muita história de violência, muita realidade de desigualdade.  Nele dizia que, pela primeira vez na história do mundo, há mais homens que mulheres. Matam-se mais mulheres.

Matam-se mais mulheres, matam-se mais mulheres, brancas e não brancas, muitas não europeias, não, não... esta estatística, para mim, sobrepôs-se às outras, as dos teatros e das instituições e empresas e, e, e. (cummings?)  deve ser da meditação, faço piada…

Sim, é mais fácil viver no mundo não vendo o mundo, não vendo a injustiça do mundo, ou vendo uma injustiça um bocadinho afastada de nós. É mais fácil o confronto com a injustiça mais afastada (outra cor, outra orientação sexual, outra religião, etc.) é mais fácil porque dói, dói como o #”@*+%&€^~/)8(∂ - isto já sou eu só a experimentar as potencialidades do teclado. E acho que também carreguei no bold sem querer - tomar o comprimidinho azul, ou vermelho - nunca me lembro - e ver finalmente a matrix, ver a injustiça em que vivemos, a sociedade criada por nós, por alguns de nós e aceite por muitos de nós, aceite ou não contestada.  O mundo é injusto sim e eu desconfio muito das pessoas que vivem no mundo e não vivem zangadas com o estado do mundo. A zanga liberta, a zanga é um wake up call, a zanga é motor de acção. A zanga, levou-me, eu que sou discreta e evito entrar em discussões - porque não sei discutir como deve ser, só me lembro dos argumentos com a cabeça já na almofada -  levou-me a escrever-te a ti, o ano passado. Levou-me e leva-me a querer procurar mulheres, todo o tipo de mulheres, com quem trabalhar. Porque comecei o meu trabalho rodeada de homens sem o questionar, porque sempre senti um desconforto e uma ansiedade que não conseguia verbalizar, que procurei respostas e comecei a ler livros, a ler muitos livros, e muitas palavras e testemunhos e a ver, e a ver e a perceber, and once you see you cannot unsee. E percebi que nos é imposta uma ideia de feminilidade que é mascarada com pseudo teorias biológicas naturais, que muitas mulheres não se revêem nesse modelo e por isso, se calhar, não se dão com muitas mulheres que perpetuam uma maneira de ser e viver que tomba, tropeça e resvala nessa feminilidade, que são as maiores críticas das mulheres porque as vestem num modelito espartilhante e redutor. Porque não se identificam com as revistas femininas, nem as modas femininas, nem as expressões femininas, as profissões femininas, as expectativas femininas, porque rejeitam tudo isso, que é artificial, que é modo de exercer poder, que é perpetuação de estereótipo e preconceito, que torna as mulheres nas piores aliadas das mulheres. Quando penso no poder destrutivo dessa mística feminina ( Hello, Betty Friedman...) fico com o sangue a ferver (e lá se foram os efeitos da meditação) o que me faz escrever tudo isto com erros e dislexias (que vou corrigir a seguir). E, neste momento, nem sei se a mística da feminilidade não será mais tóxica para a sociedade do que a mística da masculinidade.

Os meus números: a proporção da presença das mulheres diminui drasticamente quanto mais se sobe na escada da ascensão profissional. Na minha história da dança: 90% de colegas de aulas de dança mulheres, 40% professoras de dança mulheres, 20% de coreógrafas ( com visibilidade) mulheres, 5% de directoras de Companhias mulheres. Para onde vão as meninas que gostam de dançar?

Sabes o que me dá alento? É ter deixado uma sementinha em ti, azul ou vermelha, que te trouxe aqui, a falar comigo, agora.

As minhas outras zangas ficam para depois, que agora tenho de ir escrever sobre o amor.

(outro dia)

Hoje,enquanto lia a Rebecca Solnit voltava a duas coisas que queria ter dito, queria e não queria. Há uma que me custa confrontar: Tenho evitado pensar, durante todos estes anos em que tenho trabalhado, maioritariamente em cenas artísticas, se tive colegas, pares, parceiros, do outro sexo que ganharam mais do que eu, por trabalhos ou projectos idênticos, ou dentro do mesmo espectro artístico. Nunca perguntei a ninguém, nem sei muito bem a quem perguntar sem me perder em comparações nem em desesperos, se tiver a suspeita confirmada. Haverá uma tabela, mais ou menos secreta que sobe cachets, compras ou co-produções de projectos encimados por homens ou que desce cachets, compras e co-produções encimados por mulheres? Também se pratica a desigualdade salarial dentro das nossas artes? Vale menos a arte das mulheres, financeiramente?

Muitas escritoras escreveram e escrevem com pseudónimos ambíguos ou usando iniciais que não revelam género. Os escritores vendem mais, são levados mais a sério, não são empurrados para a saca pejorativa da “literatura feminina”. J.K.Rowling, anyone?

https://harpers.org/archive/2015/10/the-mother-of-all-questions/

(outro dia, same shit)

You know, jobs for the boys means just that. Like literally ;)

Eu cresci sem modelos de mulheres em nenhuma actividade que me interessasse na verdade. E, provavelmente, ficou gravado no meu pequenino cérebro de menina, que havia coisas que não era suposto as mulheres fazer nem tentar fazer, ou coisas que elas não eram capazes de fazer. Que não eram feitas para isso, que não tinham temperamento para isso e muitos blá blá blá sexistas para isso. Para uma menina querer fazer algo que não é suposto fazer, a força que é necessária, o apoio que é necessário, a coragem, o amor.

Para uma mulher querer fazer o que não é suposto fazer… hum… a history of violence...

(Um dia - igual a tantos outros e nunca propriamente bom porque a justiça não evolui à mesma velocidade que a tecnologia)

Tive a sorte de crescer com uns pais maravilhosos que nunca me disseram “uma menina não se porta assim!”. O mesmo não se passava no mês de verão interminável que passava com os meus avós paternos - “Uma menina não se porta assim, uma menina não se veste assim, uma menina tem de ajudar a lavar a loiça, uma menina não pode ficar na rua depois das 10h, uma menina, uma menina, uma menina…” e o meu irmão lá fora, às 12h, à beira mar, cheio de amigos e sem loiça para lavar... Os dias eram bons, as noites terríveis. E quando o verão dos meus avós terminava e entrava no carro dos meus pais (para ir para o verão dos meus pais) rodava frequentemente uma k7 que entre outras coisas tocava Summertime da Janis Joplin, e eu cantava mesmo sem perceber o que cantava e ia naquele carro mais feliz porque não ia ouvir a palavra menina nos próximos 15 dias. Tive a sorte de crescer com uns pais maravilhosos, que nunca me esconderam nada acerca da sexualidade, que sempre fizeram questão de não me esconder nada, e anos mais tarde deixei de conseguir lidar com os meus avós, a palavra menina não me assentava bem, não a entendia nem queria entender...mas o mundo fez questão de me gravar essa palavra à força - no corpo, na mente, no presente e no futuro. Cresci a ouvir as palavras mais porcas a caminho da escola ditas por senhores que provavelmente teriam a idade do meu pai, avô.. e nunca me calei. Passar por obras ou locais cheios de homens não era uma tarefa fácil, acho que nenhum “menino” que eu conhecesse na altura tinha noção do que isso era e todas as “meninas” sabiam de cor a sensação. Ser “menina” para mim, começou desde muito cedo a ser a recusa dessa palavra, cresci zangada porque não entendia, e estou zangada porque continuo sem entender. Fui, e acho que ainda sou um misto daquilo que chamam “maria-rapaz”. Gosto de vestir saia e usar stilettos mas não sei nem me quero sentar de perna cruzada, e normalmente não me calo quando me chamam a atenção por ser ou não ser “menina”, ser ou não ser “mulher”.  

Porque tive uns pais maravilhosos que raramente me puseram barreiras e que me permitiram ser quem sou, cresci demasiado zangada. O mundo foi-me dizendo aos berros que eu era uma puta porque me enrolava com mais rapazes do que a conta do mundo permitia e que os rapazes eram heróis...que história tão velha, que estória tão feia...

Cresci zangada por estas e muitas outras questões (a nossa capacidade de destruição é avassaladora), e sempre que podia berrava de volta ao mundo, percebi muito rapidamente que havia mais motivos para berrar do que sorrir...  Fui vivendo como quis, ignorando a palavra menina e escolhendo as minhas lutas. O mundo com aspas que falava no início não é não querer ver o mundo, é apenas tornar o meu canto mais suportável, um safe space para poder berrar contra o mundo mais alto e com armas mais poderosas. E sim, a minha raiva cresceu e o sangue tem fervido mais rápido nestes últimos tempos porque me apercebi que até esse “mundo” é apenas reflexo desse outro e que a minha ânsia de luta me deixou cair na armadilha do espaço seguro. Não existe, nem nunca existiu um espaço seguro, nem mesmo a caminho do algarve a ouvir Janis Joplin.

Estás acordada? Não sou só eu...

Eu só porque sou maluca e vivo de noite

A História das mulheres na pintura é avassaladora

Ahahahaha

Estava agora a procurar o quadro dela da morte/ assassinato de ai não me lembro do nome

Sim, isso. Foi a primeira vez que se pintou essa morte com a mulher sem estar numa posição de horror

Vai dormir eu estava aqui a pensar em batalhas e a tratar de um gato novo que tirei da rua… outras batalhas.. Os bichos são a melhor coisa do mundo

Gosto das fêmeas que viram machos quando precisam

Boa noite! Amor é sempre bom de qualquer maneira e feitio :)

“For most of history anonymous was a woman” Virginia Woolf

Estou! Porque vim de uma festa!

Eu já estou com o peso do baile nas pestanas

Isto é meio creepy

:E

Hihihi

Sim!

Tenho um desenho da artemisia gentileschi em casa, a partir de um auto-retrato seu. Fui estudar história da arte na faculdade. Não acabei. Tinha o grande tomo da história da arte do jansen. Sem artemísias

Judite

E holofernes?

Sim, alguns dizem que foi maneira de ela exorcizar a violação que lhe aconteceu

Aconteceu… enfim, não acontece como um acidente.you know what i mean

Penso muito

Uh

Agora penso menos porque estou knock out

Mas tenho outras coisas para dizer amanhã. Sobre as mulheres que tratam mal as mulheres

Os bichos não se preocupam com géneros, só na procriação e mesmo assim… gosto das fêmeas que comem os machos a seguir hihihi

Sim!

Bom descanso, bom gato. Bichos fazem bem à alma

São uma desculpa para a prática do amor

:) *

O tal

(de volta à carga)

Relativamente à tua questão de se os teus pares receberam ou recebem mais sobre trabalhos semelhantes - dada a desproporção de representação feminina na história da programação recente, parece-me óbvio que muitos homens ganharam mais do que tu por trabalhos semelhantes e continuam a ganhar. Aliás devido à falta de representação feminina ao longo da história do mundo e na estória da história do mundo devia escrever-se toda uma nova narrativa, e ainda outra, a história desse esquecimento. Mas no que diz respeito a este pequeno retângulo de terra onde vivemos, parece-me gritante que as poucas figuras femininas representadas nas artes e que até, no que diz respeito ao teatro, estavam muito ativas há uns anos atrás, sejam postas de parte, silenciadas, desaparecidas (e refiro-me a um Cão Solteiro, uma Mónica Calle, Lúcia Sigalho, entre outras). Parece-me gritante que as criadoras continuem a não ter espaço e representatividade nos teatros, a ser remetidas para espaços menores ou de “serviço educativo”... grrrrrr. E é reflexo de milhares de anos de histórias mal contadas. E reflete-se em nós, mesmo sem percebermos. Ontem fui jantar com o Zé e fomos atendidos por uma mulher nos seus vinte e poucos anos, e quando chegou a altura de trazer a conta, mesmo tendo esta sido pedida por mim, colocou o recibo ostensivamente no lado da mesa do homem. Sim porque na cabeça daquela jovem trabalhadora feminina, que provavelmente ganha o seu dinheiro, paga a sua renda e todas as suas despesas, ainda está a marca de que havendo um homem na equação, é ele que representa o papel de sustentar a família, de que o papel da mulher se remete à gestão de determinadas funções familiares que não inclui a gestão da sua própria independência e individualidade. Não lhe ocorreu sequer que poderíamos querer dividir a conta… Provavelmente nem se apercebeu da força avassaladora desse pequeno gesto no dia a dia de todas nós. E todas nós temos esses pequenos gestos inconscientes…

À semelhança das mostras de jovens criadores, agora fazem-se muitos encontros, mostras, ciclos femininos, no feminino, etc… à semelhança das mostras de jovens criadores elas muitas vezes inserem-se em ciclos específicos, bem delineados no tempo e cumprindo uma função específica no  preenchimento de espaços e quotas. São muitas vezes sub financiadas e em prol da boa intenção da visibilidade, do wake up call, continuam a promover a precariedade. Muitas vezes são bem intencionados mas quando inseridos em ciclos e não numa hiper-consciência do lugar que todos ocupamos e das responsabilidades que temos para esbater estas linhas desiguais, caem em saco roto. Continua a haver encontros, ciclos, mostras e não mudanças. Continuamos a habitar  e ser engolidas por um espaço maioritariamente masculino, branco, cisgénero e normativo.

 

Ainda acerca desta questão de mostras: há uns anos atrás fui convidada a participar numa por uma mulher (muito bem intencionada). A dita mostra era apoiada pelo Estado e tinha o carimbo de autarquias e instituições, mas a questão é que… o dinheiro era escasso e as viagens e cachets de artistas internacionais de renome comiam o orçamento para pagar as artistas femininas nacionais (porque é preciso credibilizar o evento, torná-lo mais sério, dar-lhe visibilidade). Porque aparentemente somos poucas, invisíveis, sem voz. Somos???? Não me parece.

Merda! Ontem estava tão cansada (e um pouco tipsy..) que não disse nada à mulher do restaurante, e devia, assim como agradeço que me digam a mim sempre que um destes comportamentos emerge sem que me dê conta.

https://www.khanacademy.org/partner-content/tate/women-in-art/womens-issues-in-art/v/margaret-harrison

 

Quero pegar nisto tudo e no resto a que não respondi mas hoje tenho algodão no lugar do miolo e coisas difíceis para resolver. Volto amanhã mas não queria deixar de partilhar isto que me emocionou, mesmo sabendo que é manipulação emocional é, e muito bem feita. Mesmo sabendo que a nike é uma merda, é. O mais importante é uma menina de 9 anos e o pai que acreditou nela.

https://www.businessinsider.co.za/serena-williams-us-open-nike-ad-9-year-old-home-video-father-2018-8

( o vídeo está no link twitter. Vê com som)

:) 😊💜

Hoje é dia de choro. Não. hoje é dia de choro.  Na verdade ontem é que foi dia de choro, hoje é dia de aceitar o choro.

O que eu quero dizer antes que me esqueça e contra-relógio, oh dear i shall be too late! O que eu quero dizer é que sei que muitas vezes fiquei para trás por ser mulher, que não fui escolhida por ser mulher, que não fui considerada por ser mulher, que não fui lembrada por ser mulher, que não fui respeitada por ser mulher e que outras vezes fui isso tudo, na “positiva”, por ser mulher e que muitas dessas vezes isso não foi bom porque não quero a etiqueta no dedo grande de cadáver a fingir das séries forenses, na morgue, esticadinha e azulada. Não quero a etiqueta do acaso da biologia, porque não quero ser etiqueta com componentes, como nos alimentos processados, não sei o que contém esta pessoa que sou eu, não sei o que é suposto conter nem ser. Contém multitudes, porra!

https://www.theguardian.com/books/2017/jun/06/inferior-how-science-got-women-wrong-angela-saini-review-and-the-new-research-thats-rewriting-story

Sei, de ouvir elas próprias confessar - lembro-me de uma conversa pública entre artistas plásticas e curadoras e directoras - sei que muitas mulheres com poder de escolher e decidir e dar a mão, muitas vezes fazem por não “favorecer” as mulheres, não as escolher nem apoiar, porque não querem ser vistas como tendenciosas, injustas, parciais, ou , pior, feministas. Têm pejo, têm receio, têm pudor. São demasiado bem educadas, não querem abanar o barco, não querem levantar onda, preferem deixar as irmãs afogar (sim, paleio feminista da velha onda. eu sou antiga). E fazem isto ajudando a manter a misoginia patriarcal à tona e navegante, porque os homens, no geral, não pensam se favorecem demasiado os outros homens, não pensam se têm uma entourage de trabalho demasiado homogénea, com demasiada testosterona, demasiado branca, demasiado cis. Os homens estão-se a borrifar e fazem muito bem! Não, fazem mal! Porque perpetuam a injustiça. The jobs will always be for the boys first.

Mas o pior, o pior, do choro, da raiva, são as mulheres que não gostam das mulheres, que praticam misoginia activa, que não querem trabalhar com mulheres, que não gostam de trabalhar com mulheres, que se queixam das mulheres, que falam mal das mulheres, que põe todas as mulheres no mesmo saco, cheio de preconceitos e o fecham, e o atam e atiram borda fora. Uma vez, num cabeleireiro, sim, só de mulheres, com mulheres, ouvi uma perguntar a outra, grávida, se já sabia o sexo da criança. Que sorte não ser rapariga, comentou à resposta, senão ia ser um inferno.

…

O que ela queria insinuar, não, dizer mesmo, é que as meninas não podem ser enérgicas, nem activas, nem palradoras, nem confiantes, nem respondonas, nem impossíveis, nem livres, nem, nem, nem como os rapazes. As meninas têm de ser bem comportadas, (hey simone) e se, ou quando não, o são, quando não são princesas-bonecas, quando não são o que é esperado, são infernais. Que venha o inferno! Foi a mae west que disse: as meninas bem comportadas vão para o céu, as mal comportadas vão para onde bem entenderem? Fuck yeah!

Think pink.

Eu, num ano em que dei mais entrevistas - ano de livros, poemas, peças, blá blá - como provocação, fiz questão em dizer, num  tom ligeiro, que desde há uns anos que só comprava e lia livros escritos por mulheres e, maioritariamente, livros para a minha investigação artística, livros de ensaios, filosofia, livros científicos , de história , de pensamento. Que tinha de procurar mais por eles, que não os encontrava nas livrarias, que procurava e comprava online, que cada livro levava a outro livro, a outra mulher, numa espécie de rede underground- We are the resistance! - Que praticava uma misandria de pensamento, que durante muitos anos só tinha lido livros  escritos por homens, excepção da literatura e poesia, mas mesmo assim muitos homens da literatura e da poesia. Que agora agradeço esse desequilíbrio porque me apurou o espírito crítico, vejo eu agora olhando para trás, que me fez ver como pensa um homem, what’s in a man’s head? It ain’t pretty. Hi Bukowsky. Bye Bukowsky!

Nenhuma das entrevistas publicou essa minha  provocação. Está certo que uma delas era para o expresso… ;)

Eu, na verdade, não excluí os homens de pensamento das minhas investigações, posso ser feminista mas evito ser burra, procuro o que é bom, mas entre escrito bom de mulher e de homem, escolho a mulher primeiro.

Listas, actuais, de merda.

A universidade de medicina de Tóquio que falsificou classificações de exames para favorecer candidatos homens e deixar candidatas mulheres de fora. O reitor de uma universidade americana que disse que as mulheres não são biologicamente aptas a serem boas matemáticas ou outras ciências, as universidades portuguesas com departamentos cheios de boys for the jobs e onde as mulheres são assediadas, ou desvalorizadas. Palcos onde as musas, jovens, belas, actuam, dançam se despem, se apresentam, são musas, são objectos que interpretam, não dirigem, não criam, não ou fazem-no sem reconhecimento. Os filmes que continuam a não passar no teste bedchel

https://en.wikipedia.org/wiki/Bechdel_test

Por de trás de um grande-pequeno homem estão grandes mulheres da história apagadas.

“For most of history anonymous was a woman” Virginia Woolf.

Há exemplos a mais, de mais. Be angry and don’t carry on.

“Sorting the facts from the fiction

Myth: There is such a thing as a typical male brain and a typical female brain from birth

Fact: Research has found that only the tiniest gaps, if any, exist between boys’ and girls’ fine motor skills, ability to perform mental rotations, spatial visualisation, mathematical ability, verbal fluency and vocabulary. Under normal conditions, large gaps between boys and girls haven’t been found by scientists studying the typical development of babies. In fact, the overlap between the sexes is so huge that scientists have struggled to find and replicate results that suggest there is any real gap at all.

Myth: Men are better at carrying out a single task, while women are better at multitasking

Fact: In 2013 this claim was put forward in a press release summarising an important study by the scientist Ruben Gur on the brain wiring differences between the sexes, but was not detailed in the study itself. In conversations with Saini documented in Inferior, Gur said he hadn’t seen any scientific evidence to support this claim, and he’s not sure how it made it into the press release.

Myth: Women are naturally less intelligent than men because their brains are smaller and lighter

Fact: Men do, on average, have slightly bigger heads and slightly bigger brains than women. But as the trailblazing intellectual Helen Hamilton Gardener pointed out in the 19th century, it is the ratio of body size to brain size that is important. Otherwise, as she put it, “an elephant would be able to out-think all of us”.

Inferior, Angela Saini”

Tenho de transcrever uma coisa e partilhar outra escrita por mim, longa e chata ;) mas é para ser dita como um flow de rap.

In, The Mother Of All Questions, R.Solnit

(...)Mary Beard… notes that silencing women begins almost as soon as western literature does, in the odyssey, with Telemachus telling his mother, Penelope, to shut up.

(...) Beard describes how having a voice-preferably a deep one- was considered definitive of masculinity, and the public sphere is the masculine sphere. “ A woman speaking in public was, in most circumstances, by definition not a woman”.

E sobre uma jornalista que escreveu um livro sobre a coreia do norte, Suki Kim, que foi empurrado para o canto das memórias e não da investigação jornalística, por razões de marketing (???) e que diz:

“... ( to be continued logo à noite, quando chegar)*

Eu também estou a correr e sem tempo para escrever por agora, mas devo voltar de madrugada.

E que diz:

“ By casting my book as personal rather than professional-by marketing me as a woman in a journey of self-discovery, rather than a reporter on a groundbreaking assignment- i was effectively being stripped of my expertise on the subject i knew best. It was a subtle shift, but one familiar to professional women from all walks of life. I was being moved from a position of authority- what do you know?- to the realm of emotion. How did i feel?”

Isto lembra-me a história que a Solnit conta no Men Explain Things To Me, e que deu origem ao livro, em que durante um jantar um homem insistiu em explicar-lhe o livro que ela própria tinha escrito:

“We were preparing to leave, when our host said, “No, stay a little longer so I can talk to you.” He was an imposing man who’d made a lot of money.

He kept us waiting while the other guests drifted out into the summer night, and then sat us down at his authentically grainy wood table and said to me, “So? I hear you’ve written a couple of books.”

I replied, “Several, actually.”

He said, in the way you encourage your friend’s seven-year-old to describe flute practice, “And what are they about?”

They were actually about quite a few different things, the six or seven out by then, but I began to speak only of the most recent on that summer day in 2003, River of Shadows: Eadweard Muybridge and the Technological Wild West, my book on the annihilation of time and space and the industrialization of everyday life.

He cut me off soon after I mentioned Muybridge. “And have you heard about the very important Muybridge book that came out this year?”

So caught up was I in my assigned role as ingénue that I was perfectly willing to entertain the possibility that another book on the same subject had come out simultaneously and I’d somehow missed it. He was already telling me about the very important book — with that smug look I know so well in a man holding forth, eyes fixed on the fuzzy far horizon of his own authority.

Here, let me just say that my life is well-sprinkled with lovely men, with a long succession of editors who have, since I was young, listened and encouraged and published me, with my infinitely generous younger brother, with splendid friends of whom it could be said — like the Clerk in The Canterbury Tales I still remember from Mr. Pelen’s class on Chaucer — “gladly would he learn and gladly teach.” Still, there are these other men, too. So, Mr. Very Important was going on smugly about this book I should have known when Sallie interrupted him to say, “That’s her book.” Or tried to interrupt him anyway.

But he just continued on his way. She had to say, “That’s her book” three or four times before he finally took it in. And then, as if in a nineteenth-century novel, he went ashen. That I was indeed the author of the very important book it turned out he hadn’t read, just read about in the New York Times Book Review a few months earlier, so confused the neat categories into which his world was sorted that he was stunned speechless — for a moment, before he began holding forth again. Being women, we were politely out of earshot before we started laughing, and we’ve never really stopped.”

O que eu também queria dizer é que eu escrevo, para o meu trabalho, a partir das minhas experiências, os meus textos são, uns mais outros menos, auto-referenciais, que me é importante responder ou dizer o: How do I feel. Que me parece vital limpar as emoções da lama sentimental, “feminina”, menor, fútil, ridícula por onde foram arrastadas, as emoções  e reflexões e sentimentos e experiências de vida, da prática do viver, da prática do amor. O que escrevo parte de mim mas tem muito ensaio lido pelo meio, tem pensamento conceptual, tem filosofia, mesmo se o que me ocorre é escrever sobre os naperons da minha mãe.

Flow zangado ( o tal que faz parte do texto maior do inicio do ano):

“Flux

A

Colagem é como o colo

Das palavras

Onde se dá o colo e fica o colo

Dado. Manchado.

Ou é

A

Cola

Colagénio

No toque de beiços dados

São dados

Lançados

Laçados

Passados

Lábios colados

Colar é o contrário de calar.

Adrienne

Djuna

Edna

Jane

(Na primeira, prateleira, da estante baixa, no compartimento de cima, uma, no do meio, outra, no cimo, entre outra, deitada, a última, arrumada. Só por isso escolhidas. Amadas, só por isso, escolhidas. Coladas. Não caladas, não caladas).

Colar é o colo das mulheres, todo o colo das mulheres, amplo, ossudo, carnudo, quente. Morno, tocado rente, Todas as mulheres são coladeiras. Mulheres coladeiras, a colar plantas, um colar, plantas. Sem plantar, amar, mas a colar. A colar folhagens no papel. Flores, floras cortadas. A cortar as patas das faunas, os cornos, as caudas. A cortar com tesourinhas. Tesourinhas de unhas, de presas, afiadas, prateadas, douradas. A cortar as cabeças das figuras-homens, das figurinhas, cabecinhas, tesourinhas. A cortar a cabeça da história feita de homens e de meretrizes, a cortar as raízes. A cortar aos montes, as casas ao meio, a decepar torres, rios, países feios. A cortar aos montes para não calar, em vez do grito, para não matar, em vez da morte, do papel decepar. A cortar aos montes, e nos colos, nos tecidos colos, mais ou menos coloridos, nos colos tecidos, montes a crescer, para colar, colar até dizer.

Até dizer mas, cartas.

Nas cartas anónimas, colavam as mulheres antes de saber gritar, mulheres, caladas.

Ficou para as mulheres essa vingança. Essa vingança viperina, da má língua, nas cartas anónimas recortadas, cuspidas, coladas. Não sobreviveram as cartas anónimas feitas de recortes, cuspidas, coladas. Perfeitos os recortes. Tirados das folhas das bíblias, sempre, dos jornais, aos domingos, das revistas, depois da lida da casa. Esfregada, esfregada.

A ponta dos dedos, áspera da cola de papel, da cola e do papel, e depois esfregada, esfregada. A ponta dos dedos, dos nervos, a tocar o colo no decote, o colo de cima onde brilha colar, febril o colo e a fronte não temperada. Acima dos seios, na pele, medalhinha ou pérola ou pedra colada.

Um colar é coisa de colar ao pescoço. À volta do pescoço onde se cala e se não cala, há um colar ao pescoço de coisas juntas, coladas. À volta do pescoço, onde se aperta o pescoço, onde se tira o ar, apertam-se colares, gargantilhas. A choker is nothing more than a choking device.

Dão colo as mulheres, não calam as mulheres.

Falar às mulheres, falar com as mulheres e colo para não calar, agora não calar. Falar das mulheres nas palavras, nos livros. Dão colo os livros, dá colo um livro, pesa na mão, um colo, é livre, é vivo. Dão-me colo as mulheres. Dão-me peso as mulheres.

Eu, que cresci com os homens, com mais homens do que queria. Eu, que só comecei a falar tarde, a dizer tarde e a gritar muito menos. Eu, que gritar só à pouco e fraco primeiro, fraco o grito primeiro. Primeiro na doideira, na doidice de poder, de o poder fazer,  I am woman hear me roar, sem medo ter.

Dão-me colo as mulheres. Dão-me voz as mulheres.

Começar tarde, a colar daqui e dali, a colar a pele, a colar dos nervos, tantos nervos, do desejo, tanto desejo de coleccionar, colaccionar? As vozes delas, delas, Adrienne Djuna, Edna, Jane. São tantas, que assombro, tantas, que pasmo, tantas, e agora, tantas, têm os nomes que colam, colam ao céu da boca, colam caramelo a escorrer entre as pernas, e essa, é a suprema felicidade de colar e não calar, sempre. Entre as pernas. Dão-me prazer as mulheres.

Colar é o colo das mulheres caldeiras, que aquecem, que são livros e aquecem como queimam, que queimam como aquecem. Livros não escritos, que ficaram por escrever, mas, que ocuparam o espaço do colo e dos ais.

Adrienne Djuna, Edna, Jane.

O que falta para colar, para não calar. Faltam desenhos, falta encher as paredes de desenhos, de retratos, de todas as mulheres-meninas, de todas as mulheres-mulheres, de todas as mulheres-que-o-escolhem-ser. Faltam retratos, coladinhos uns aos outros,  a falar uns com os outros, umas com a outras. Faltam os rostos a serem palavras não caladas. Os rostos coladinhos uns aos outros. A subir elevadores apinhados. Sempre a subir, não temer a vertigem, sempre a subir. Coladinhas umas às outras, coladinhas as bochechas, nas faces quentes, rosadas e quentes. O rosto da mulher é um grito, nos lábios horizontais do rosto, nos lábios verticais do sexo. O rosto da mulher é um grito colado em cima de grito, em cima de grito, em cima de grito, em.

No colar não há espaço entre as superfícies.  Não há espaço, só amar.

Colar é o contrário de calar.

Adrienne

Djuna

Edna

Jane

We are at war.”

Lembro-me muito bem, no início da minha carreira como criadora, quando estreei os haikus, de ouvir, da boca de mais de um homem, que o meu trabalho era muito feminino( eu acho que eles queriam dizer feminista mas tinham medo de usar  a palavra), como se isso fosse estranho ou problemático. Como se fosse menor? Como se eu me estivesse a fazer um desfavor, e ao meu trabalho, indo para território demasiado desconfortável para o público. Ao que eu pensei, com os meus botões, e ainda penso: Am I a freak? Fuck yeah!

(j) = vulva? ;)

Vou só pôr este link aqui porque toda a gente devia ver isto e que se lixe a netflix:

http://www3.0123movies.org/watch/hannah-gadsby-nanette-2018-online-123movies.html

:) 💞💪

(Noite, mas quase dia...)

Hoje não escrevo, deixo só um link. Amanhã volto cá.

https://youtu.be/UUWid7BetA8

<3

O que eu odeio os contos de fadas? E os livros para meninas da Porto Editora?!

E agora vou inserir mais umas imagens, meio ao acaso, para quebrar a mancha de texto. ;)

(...)

Quinta-feira.

Estive aqui a ver isto e não tirava nada. Hum… não sei muito bem o que tirar.

(mais tarde)

Eh pá… não me apetece tirar nada… e agora?

 

(Quase 2 dias sem te escrever. Desculpa este silêncio, a vida atravessou-se no caminho, agora deste lado :S)

 

E eu agora escrevo a amarelo porque “deixa o olho encadeado”, porque é difícil de ler, mas não tão difícil como este sítio de onde escrevemos, nos escrevemos, descrevemos, revolvemos... Porque o amarelo é difícil de ler, assim como parece ser difícil de entender este lugar de onde falamos. E porque quero. E se quero, posso! :D ✊♀️

E porque temos de terminar, concluir, editar, e eu não quero porque quando olho à volta tudo me parece editado, silenciado, manipulado, photoshopado...

E se esta conversa se repete, é massuda, tem grandes manchas de texto, se é  demasiado “feminina” ou nem tanto “feminina” (.|.), se se perde, extravia, divaga, enrola, se é zangada ou agressiva, se tem manchas de texto demasiado grandes e poucas imagens a compor, se tem demasiados links e se às vezes se parece um grande monólogo e menos conversa – QUE SE FODA!

 

E no fim disto tudo o que me dá alento é isto, este diálogo que se estende a outrxs:

“Oi.

Eu sou a Laura.

Sou...

a imagem ocidental da fragilidade feminina.

Isto quer dizer que eu sou... branca... tenho... um ar cândido e inocente e parece que vou partir. E... estas coisas fazem parte da minha aura...

E é essa aura que torna a minha fragilidade hipnotizante, romântica, linda, lovely.

Portanto quando me pintam, quando me escrevem não é a mim que me estão a retratar é à minha...aura.

E nesses retratos eu nunca existo para decidir, eu nunca existo para ser. Sou só para ver.

E também sou sempre Virgem Maria. Sempre. mesmo quando sou Laura. Ou Ofélia. Ou Inês. Ou Desdémona. Ou Mafalda.

E nesses retratos eu também nunca falo na primeira pessoa, porque se falasse na primeira pessoa eu não usaria a palavra aura. Eu usaria a palavra fetiche.

Fetiche. Sim. Diria fetiche...

E nesse caso o meu retrato não era só um retrato, também seria uma reparação histórica. Também seria uma denúncia...

uma denúncia da minha aura enquanto filtro da assimilação, enquanto desculpa para a minha violação.

E isso sim, era um espaço. E aí o espaço todo deixava de ser só d'Ele. D’Ele que me pinta, d’Ele que me escreve, d’Ele que me olha,  d’ Ele que me viola. D’Ele que acha que eu lhe devia agradecer porque afinal eu estou no Louvre, no Hamlet, na História de Portugal, no Jardim Zoológio de Cristal.

Só que eu não posso agradecer porque a instrumentalização não se agradece. Séculos de instrumentalização não se agradecem.

Portanto eu não estou agradecida, estou só obrigada.

Obrigada a estar aqui, parada.

Obrigada a servir o seu fetiche.

Obrigada a policiar o meu comportamento, aquilo que eu visto, aquilo que digo, aquilo que eu penso.

Obrigada a lutar pela minha credibilidade intelectual.

Obrigada a pensar na segurança dos sítios por onde passo. Obrigada, a silenciar a minha zanga porque é preciso manter o poder d’Ele.

Obrigada, muito obrigada.”  – Mafalda Banquart in manifesta. (1 dos projetos finais do recurso)

E por hoje, se do Recurso saírem mais mulheres criadoras já ganhei!